MUITO PRAZER, SOU CIDADÃO
Confesso, seu moço, eu não tenho estudo
Eu mal sei falar, tampouco escrever
Não sei me expressar com palavras difíceis
Mas eu sei viver.
Desculpe, seu moço, minha ignorância
Eu não tive escola pra mode aprender
Não sei matemática nem outras ciências
Nem mesmo sei ler.
Eu sei que o doutor vai compreender
Meu jeito brejeiro, meu rude falar
Não leio jornais nem vejo internet
Não pude estudar.
Seu moço me diga o que está escrito
No livro bonito que o senhor tem
Sou homem sem estudo, sem títulos, sem letras,
Lamento também.
Minha mãe me deu a educação
Meu pai me ensinou a todos respeitar
Eu ando direito e obedeço às leis.
Só não pude estudar.
Me diga, doutor, o que é ser cidadão.
Será que é somente ler e escrever?
É conhecer letras, é falar bonito?
Preciso saber.
Um dia escutei na cidade grande
Um homem falando, só não lembro o dia
Que se respeitarmos, teremos respeito
Se cumprirmos os deveres, teremos direito
Isso é cidadania.
Se ser cidadão é ter consciência
É cumprir deveres e ter educação
É respeitar a vida e limites impor
Muito prazer, doutor,
Eu sou cidadão.
João Rodrigues Ferreira
Poesia classificada em 1º Lugar no 1º Concurso Literário Unisuam em Dezembro de 2005
Escrito por João Rodrigues às 12h01
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Conto finalista do i concurso literário unisuam - bonsucesso
Cidadania
Enganaram-me. É verdade que nunca estudei nos melhores colégios nem cresci na roda intelectual que decide o futuro da nação. No entanto, confesso, não fui de todo ignorante no que se refere a certos direitos e deveres. Admito, porém, que mais conheci deveres do que direitos – este segundo cruzou meu caminho menos vezes do que suponho contar nos dedos de minha mão que agora escreve; e, as raras vezes em que por mim favoreceu foi em troca de um favor ainda maior.
Descobri, mais tarde, que eu não fora o único que sofrera as desventuras da desilusão. Sonhos foram por outros plantados na esperança de que florescessem sobre o vasto e rico solo dessa imensa nação-
Não hei de ficar rabiscando frases de efeito e buscando no léxico palavras de difícil compreensão ao caro leitor. (Pois é dessa forma que nos enganam).Fui, na minha ingenuidade ainda não tão distante, enganado por um jogo de palavras rebuscadas até então desconhecida pelo meu humilde vocabulário.
Falaram-me sobre educação. Substantivos cheios de adjetivos nobres, dignos de complementar e coroar a nobreza que seu significado nos traz. Seria a mudança de um povo que se esconde atrás da ignorância; uma vez plantada no seio da cada homem, uma nova visão nos levaria à Terra Prometida – uma nação cheia de glórias comandada por cavalheiros ilustres e destemidos, pois o conhecimento estaria com eles.
Falaram-me também sobre cidadania. Um Jardim Genesiano que seria descoberto pela educação. Cidadania. Gostei da palavra, e mais ainda do que li a seu respeito. Sim, educação e cidadania, dois utópicos substantivos. Realmente colocar em prática seria os louros e a glória de um povo.
Não fui ludibriado por seus significados, pois eles existem; o meu desengano veio pelo simples fato de eu ter esperado demais que eles chegassem até mim. Não as encontraremos sozinhos: é necessário que todos recebemos essa semente e que juntos reguemos.
Plantamo-la na escola. A educação, a semente que germina, floresce e produz os frutos da cidadania. O fruto que sacia a fome da ignorância e mata a sede de conhecimento; Pois um cidadão se faz na escola e cidadania se constrói dentro de cada homem. Portanto, somos nós, o alicerce dessa construção.
Escrito por João Rodrigues às 12h01
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AOS TRAPOS
Entre trapos e traças
Passo a passo
Busco no tato
A velha vida
Ferida
Sofrida
Num canto do quarto.
A alma aos fiapos
Busco energia
Na alegria
Despedaçada
Desesperada
Acalentada
Da poesia.
Num canto do quarto
Entre traças e trapos
Fica aos pedaços
Sofrida
Esquecida
A velha vida
Sem força, sem tato.
28-10-05
Escrito por João Rodrigues às 11h44
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Biografia de um nordestino
Sou filho da terra, da seca, da mata
Onde o ouro e a prata têm nenhum valor
Sou homem sem letras, e a minha história
É cheia de vitória, de luta e dor.
Não busco riquezas, nem ligo pra nome
Do que vale o homem se não tem virtude?
Sou humilde, vaqueiro, guerreiro, sou forte
Amigo da morte, tal ela sou rude.
Mas trago em meu peito a sinceridade
Onde a amizade é sempre absoluta
Sou homem de bem, honesto e sincero
Consigo o que quero com trabalho e luta.
Nunca me acostumo a viver na cidade
Pra falar a verdade tenho medo de gente
Não conheço modas nem gente importante
Não sou ignorante, apenas diferente.
Escrito por João Rodrigues às 11h42
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UTOPIA NORDESTINA
O calor era insuportável. Nenhuma sombra havia no meio daquele nada. Verde ali, só alguns mandacarus. A cabeça de Fabiano fervia. Sinhá Vitória vinha logo atrás com os dois meninos, seguidos pela cachorra Baleia, que de vez em quando cheirava algum osso que encontrava mas logo desistia, pois o osso era tão duro que mais parecia uma pedra.
A família de retirantes marchava no meio daquela sequidão rumo a um futuro incerto, como muitos outros já haviam feito. Fabiano se arrependeu por não ter partido com seu Tomás da Bolandeira. Aquele velho sabido com certeza iria se dar bem na cidade grande. Não tinha ido junto por causa de sinhá Vitória, dizendo que não dava certo. Mulher desgraçada! Por causa dela, estava ali no meio daquele inferno, prestes a morrer de sede. Infeliz! Devia ter largado ela lá e levado os meninos.
Olhou para trás e sentiu pena daquela miserável que sofria tanto quanto ele. Como gostaria que a chuva chegasse, para não ter que deixar o querido sertão e acabar o sofrimento daqueles coitados. Uma lágrima caiu de seu rosto, enxugou-a com a mão empoeirada. Maldita seca! O sertão, outrora tão bonito, agora estava daquele jeito, triste, sem vida, só poeira e ossos.
Agora carregava o filho mais novo nas costas, pois o pequeno não agüentava mais a caminhada. Sinhá Vitória, com uma trouxa na cabeça, resmungava qualquer coisa enquanto segurava a mão do mais velho. Coitada! O sol deveria estar torrando os miolos daquela infeliz. A sede já apertava, o último gole d’água da cabaça já tinha acabado. Pediu a Deus que encontrassem um pouco de água barrenta, o que era quase impossível ali.
De repente, avistaram um juazeiro. Bendita árvore! A única que resistia àquilo tudo. Agora iriam descansar um pouco. Fabiano foi o primeiro a sentar, admirando-se com a quantidade de pássaros na árvore. Pensou um pouco, talvez tivesse água por perto, só podia ter. Logo Baleia apareceu com as patas molhadas. Era uma nascente de água cristalina. Beberam até matar a sede. O sertanejo tirou o chapéu e agradeceu a Deus. De sede não morreriam mais. Logo caíram num sono profundo.
O sertão estava bonito que dava gosto! O gado, gordo que era uma beleza! Sinhá Vitória e os meninos estavam gordos também. Até Baleia estava mais bonita. Também pudera! Fabiano agora era fazendeiro, tinha gado e terra, não dependia mais de patrão nem de ninguém. Nunca mais trocaria o Nordeste por lugar nenhum deste mundo. A miséria tinha acabado, não tinha mais seca, graças a Deus e a seu Tomás da Bolandeira.
O velho tinha voltado para o sertão e trazido com ele um doutor, tal de engenheiro agrônomo, para resolver o problema da seca. Seu Tomás sempre dissera que naquele chão tinha água de sobra. E tinha mesmo. Fizeram poços e barragens, canalizaram a água na terra toda. Estava feita a irrigação de que o velho tanto falava. O governo dividiu a terra entre o povo. Agora todos podiam plantar e colher seus próprios frutos. A seca tinha acabado.
Fizeram uma cooperativa, e o que sobrava da safra era vendida para a cidade grande. E Fabiano sorria! Seus dentes agora brancos e bem-cuidados era resultado de mais uma idéia de seu Tomás. Haviam construído um posto de saúde, e o governo dava assistência. E o povo agora sorria!
Fabiano botou os meninos na escola, pois estudar dava resultado. Não queria que os filhos fossem como ele. Não é que o diabo do velho tinha razão! Estudar era bom mesmo. Até sinhá Vitória queria aprender a ler, e aprendeu. Todas as crianças foram para a escola. Como estava diferente o sertão! A solução sempre estivera lá, esperando alguém para descobrir. Era como seu Tomás dizia: “Os poderosos jamais resolverão nossos problemas, Fabiano. Eles nos querem sempre burros e na miséria.” O velho tinha razão. Como era sabido aquele velho!
Mas agora acabara. O sertão era dos sertanejos, como sempre deveria ter sido. Pois o sertanejo nunca quis esmola, mas sim uma oportunidade para obter o seu próprio sustento. Nunca quis a terra de ninguém, mas sim condições para viver com dignidade no seu próprio chão. Aqueles miseráveis sugavam até a última gota de sangue do pobre homem. Isso também acabara.
O Nordeste agora era outro. Tinha água e comida, tinha fartura. O povo tinha estudo, tinha uma melhor visão do mundo, não era mais escravo da ignorância. Tudo de que o Sertanejo precisava era trabalho digno e educação. Fabiano tinha. O povo tinha isso. A miséria do Nordeste nunca foi a seca, e sim o descaso político.
Mas o nordestino venceu a ignorância, a fome e a seca. E o Nordeste agora sorri.
Este trabalho foi classificado no Prêmio literário Nossa gente, nossas letras e publicado pela Record em 2003.
Escrito por João Rodrigues às 09h59
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Cantos e Encantos
PERFIL:
Olá, galera! sejam bem-vindos ao Blog cantos e encantos.
Sou João Rodrigues, 100% cearense, leonino, casado, flamenguista, estudante de Letras, tenho tantos anos de vida e adoro viver. Gosto de ler, escrever (alguns malucos iguais a mim me conveceram disso e acabei acreditando), gosto de futebol, praia... e como todo bom cearense, nada melhor do que um bom Forró para alegrar o ambiente.
Aqui vocês encontrarão poemas, contos, literatura de cordel, causos e outros.
Não esqueçam de dar opiniões.
Escrito por João Rodrigues às 11h26
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Aslam está voltando!
Escrito por João Rodrigues às 10h24
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